Polifarmácia em idosos: riscos e quando revisar remédios

Entenda por que o uso de vários medicamentos ao mesmo tempo exige revisão cuidadosa em idosos e quais sinais merecem atenção da família.

<p>Tomar vários remédios ao mesmo tempo é comum na velhice. O idoso pode ter pressão alta, diabetes, dor crônica, insônia, osteoporose, ansiedade, arritmia, refluxo e outras condições que exigem acompanhamento contínuo. O problema começa quando a lista cresce sem revisão, quando medicamentos antigos continuam ativos sem necessidade clara ou quando remédios prescritos por profissionais diferentes passam a se sobrepor.</p> <p>Polifarmácia não significa, automaticamente, tratamento errado. Há idosos que precisam mesmo de vários medicamentos. A questão é outra: cada comprimido precisa ter motivo, dose adequada, horário possível de cumprir e benefício maior que o risco. Quando isso não acontece, o tratamento deixa de proteger e passa a criar novos problemas.</p> <h2>O que é polifarmácia</h2> <p>De forma simples, polifarmácia é o uso simultâneo de muitos medicamentos. Algumas referências usam como ponto de corte quatro, cinco ou mais medicamentos de uso contínuo. Mais importante que o número exato é entender o contexto. Um idoso que usa cinco remédios bem indicados, revisados e tolerados pode estar seguro. Outro, com três medicamentos mal ajustados, pode ter tontura, sonolência, queda ou confusão mental.</p> <p>A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia chama atenção para o risco aumentado de agravos, como quedas e hospitalização, quando há uso concomitante e rotineiro de vários medicamentos em pessoas idosas. Também há medicamentos considerados potencialmente inapropriados para idosos, porque podem causar mais efeitos adversos nessa faixa etária ou exigir cautela especial. ([SBGG][1])</p> <h2>Por que o idoso é mais vulnerável</h2> <p>O organismo muda com o envelhecimento. Rim, fígado, composição corporal, massa muscular e distribuição de gordura podem alterar a forma como o medicamento é absorvido, metabolizado e eliminado. Isso significa que uma dose comum para um adulto mais jovem pode ser excessiva para uma pessoa idosa, especialmente quando há doença renal, perda de peso, fragilidade ou desidratação.</p> <p>Outro ponto é que muitos idosos convivem com sintomas parecidos entre si. Tontura pode ser labirintite, queda de pressão, hipoglicemia, arritmia, anemia ou efeito colateral de remédio. Sonolência pode ser sono ruim, depressão, demência, infecção ou excesso de sedativos. Sem uma revisão organizada, o risco é tratar efeito colateral como se fosse uma nova doença.</p> <p>É assim que se forma a chamada cascata medicamentosa: um remédio causa um sintoma, esse sintoma é interpretado como novo problema e outro remédio é acrescentado. O idoso passa a tomar mais medicamentos, mas nem sempre fica melhor.</p> <h2>Sinais de alerta em casa</h2> <p>A família deve observar mudanças que aparecem depois da introdução de um medicamento ou após aumento de dose. Queda, tontura ao levantar, boca seca intensa, prisão de ventre nova, sonolência durante o dia, confusão mental, piora da memória, perda de apetite, tremores, inchaço nas pernas e fraqueza sem explicação merecem atenção.</p> <p>Também é importante notar se o idoso está errando horários, repetindo doses ou deixando de tomar comprimidos por não entender a prescrição. Uma receita com muitos horários diferentes pode ser tecnicamente correta, mas inviável na vida real. Quando o cuidado depende de familiares, cuidadores e farmácias diferentes, o risco de duplicidade aumenta.</p> <p>Um exemplo comum é o idoso usar dois medicamentos parecidos porque um foi prescrito no pronto atendimento e outro pelo médico habitual. Outro é manter por meses um remédio que deveria ser temporário, como alguns medicamentos para dor, sono, refluxo ou infecção.</p> <h2>Medicamentos sem receita também contam</h2> <p>Polifarmácia não envolve apenas remédios prescritos. Anti-inflamatórios, vitaminas, fitoterápicos, laxantes, descongestionantes, antialérgicos, suplementos e remédios para dormir comprados por conta própria entram na conta. Em idosos, esses produtos podem interagir com medicamentos de pressão, anticoagulantes, antidepressivos, remédios para diabetes e outros tratamentos contínuos.</p> <p>O fato de um produto ser vendido sem receita não significa que seja inofensivo. Em uma pessoa jovem e saudável, o risco pode ser baixo. Em um idoso com insuficiência renal, pressão instável, histórico de sangramento ou uso de anticoagulante, a conversa muda.</p> <h2>O que é revisão de medicamentos</h2> <p>Revisar medicamentos é olhar a lista completa com calma. Não é apenas renovar receita. A revisão deve responder perguntas práticas: este remédio ainda é necessário? A dose está adequada para idade, peso e função renal? Existe duplicidade? Há interação importante? O horário faz sentido? O idoso está conseguindo tomar? Algum sintoma pode ser efeito adverso?</p> <p>A revisão também considera prioridades. Em geriatria, o objetivo não é apenas controlar exames. É preservar funcionalidade, segurança, autonomia, sono, cognição, mobilidade e qualidade de vida. Um remédio pode melhorar um número no exame, mas piorar equilíbrio ou apetite. Esse tipo de decisão precisa ser individualizada.</p> <p>A Organização Mundial da Saúde define envelhecimento saudável como o processo de desenvolver e manter a capacidade funcional que permite bem-estar na velhice. Essa ideia ajuda a colocar os medicamentos no lugar certo: eles são ferramentas, não o centro do cuidado. ([Organização Mundial da Saúde][2])</p> <h2>Desprescrição não é abandonar tratamento</h2> <p>Muita gente se assusta com a palavra desprescrição. Ela não significa parar remédios importantes de qualquer jeito. Significa retirar, reduzir ou substituir medicamentos quando o risco passa a superar o benefício, sempre com critério clínico e acompanhamento.</p> <p>Alguns medicamentos precisam de retirada gradual. Outros exigem monitoramento de sintomas, pressão, glicemia, dor, sono ou humor. Por isso, a família não deve suspender remédios por conta própria. O caminho mais seguro é levar a lista completa para avaliação, incluindo caixas, doses, horários e produtos comprados sem receita.</p> <h2>Como a família pode ajudar</h2> <p>Uma medida simples é manter uma lista atualizada de todos os medicamentos. Ela deve conter nome, dose, horário, motivo de uso e quem prescreveu. Essa lista precisa ir a consultas, pronto atendimento e internações. Quando há mudança na receita, a lista antiga deve ser conferida para evitar sobreposição.</p> <p>Também ajuda usar organizadores semanais, reduzir horários quando possível, separar remédios de uso contínuo dos temporários e evitar estoques antigos em casa. Caixas vencidas, receitas antigas e comprimidos sem identificação são fonte frequente de erro.</p> <p>Outro ponto é contar ao médico o que realmente acontece. Se o idoso não toma certo, esquece, sente tontura ou tem medo de determinado remédio, isso precisa aparecer na consulta. Uma prescrição bonita no papel não resolve se não cabe na rotina.</p> <h2>Quando procurar avaliação médica</h2> <p>A revisão é especialmente importante após internação, queda, confusão mental recente, perda de peso, piora da função renal, troca de médico, início de cuidador, diagnóstico de demência ou aumento rápido no número de medicamentos. Também vale revisar quando a família percebe que a pessoa está mais sonolenta, fraca ou instável sem uma causa evidente.</p> <p>Em muitos casos, pequenos ajustes fazem diferença grande. Reduzir duplicidades, reorganizar horários, trocar uma medicação inadequada ou simplificar a prescrição pode melhorar adesão, reduzir sintomas e prevenir eventos graves.</p> <p>Polifarmácia não deve ser tratada como detalhe administrativo. Em idosos, a lista de medicamentos conta uma parte importante da história clínica. Quando essa lista é revisada com atenção, o cuidado fica mais seguro e mais humano.</p> <p>Fontes consultadas: Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, Organização Mundial da Saúde.</p>

Por Dr. Davi Leonel.